quinta-feira, 11 de abril de 2019

Episódio 2 - Ponta 88




                                                                                        PONTA 88


Existem momentos na vida em que achamos que nada mais faz sentido.
Esse era um daqueles dias.

     Como chegamos a isso é a grande questão, porque na maioria das vezes, nem sabemos ao certo onde tudo começou.

            Mas nesses casos, de uma coisa temos certeza, chegamos ao insuportável.

      Passei o final de semana sem querer ver o dia ou a noite, celular desligado, desconectada do mundo, olhos inchados, corpo dormente, pensamentos confusos, fragmentada em mim mesma.
            Mas o pior ainda estava por vir, pois a manhã seguinte revelaria uma nova segunda-feira e junto com ela um novo dia de trabalho.

            Quando cheguei na escola naquela manhã, óculos escuros, pele apagada, ânimo vazio, minhas colegas foram completamente solidárias, ao que agradeci, mais por obrigação, e sem dar muito espaço ou chance de entrada, permaneci ali, presa a um mundo de dor, frio, escuro, pálido.

            O sinal tocou.
            Eu não queria ir.
            Pensei em desistir.

            – Você tem um aluno novo começando hoje.

            Aquela fala da supervisora soou como uma lâmina fria que desferia o golpe fatal, “não me faltava mais nada”.

            Entrei na sala, e em meio ao caos nosso de cada dia, percebi o aluno novo sentado ao fundo, na última classe à direita de quem entra, avaliei a situação com a precisão que a experiência me doutorava, “conheço bem o tipo”.
            Passei uma atividade qualquer e me joguei à deriva do tempo, perdida no espaço existencial que os minutos consumiam lentamente, um a um, em um interminável loop de sessenta segundos.
          Ainda faltavam quinze longos e intermináveis minutos para o intervalo, quando resolvi dar uma volta pela sala, a fim de descarregar um pouco do ácido que me corroía, em cima de algum espertinho que me desafiasse.
            Olhei para o novato. Era ele. Caminhei lentamente em sua direção.

            – Terminou a tarefa?
            – Sim, senhora.
            – E o que você está fazendo?
            – Escrevendo.
            – Que maravilha, um escritor! – a minha ironia era evidente – Posso ver? – falei aquilo tomando o pequeno caderno sem dar nenhuma escolha ao menino.

            O que encontrei me surpreendeu!

            – O que significa?
            – É uma coleção.
            – De pontas de lápis?

            Ele apenas assentiu com a cabeça.
            Aquilo me deixou intrigada.

            – Por que, pontas?
            ­– Porque elas são memórias.
            – Memórias? Como assim?
            – Quando uma ponta quebra sem eu fazer esforço, escrevo o que eu tô sentindo naquele momento.

            Aquilo era pessoal! Íntimo!
            E isso me fez voltar à dignidade.

            – Posso ler?

            Ele olhou bem nos meus olhos e novamente apenas assentiu com a cabeça, baixando o olhar em seguida.
            Eu voltei minha atenção para a última ponta que havia sido fixava por uma fita adesiva e segui a leitura do registro.

            Ponta 88: medo, foi isso que senti quando ela se aproximou; é estranho, porque eu nunca tinha tido medo de nenhuma professora, talvez seja a tristeza que ela carrega e espalha na turma, que assim como ela, também é triste. Se eu pudesse espalharia alegria na sala. Tomara que eu também não me torne triste.

            O sinal tocou.
            Devolvi o caderno, me abaixei ao lado do menino e apenas consegui dizer:

            – Você me ajuda a ser alegre?

            Ele abriu um largo sorriso, me abraçou apertado e falou baixinho no meu ouvido:

            – Ajudo.

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