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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Episódio 1 - Vol. 1 - O Colecionador



            O COLECIONADOR

  Meu nome é João; eu sei que é um nome bastante comum, mas eu gosto.
            Mudamos de cidade nesse verão, aliás, mudamos muitas vezes de cidade por conta do trabalho do meu pai, mas eu já me acostumei.
          Tenho uma irmã que se chama Maria, isso às vezes, quer dizer, sempre, acaba sendo motivo de muitas piadas e brincadeiras, por causa da história de João e Maria, mas isso também não me incomoda.
            Hoje é o meu primeiro dia de aula na nova escola; ela parece bem legal, mas isso eu vou descobrir quando conhecer meus colegas, porque pra mim, o mais importante não são os prédios ou qualquer coisa que tenha neles, pra mim, o mais importante são as pessoas.
            Já estudei em escolas pequenas e sem grandes confortos ou tecnologia, mas com pessoas de quem lembro até hoje; em compensação, já estive em escolas que tinham de tudo e de que não sinto nenhuma saudade.
            De qualquer forma, o primeiro dia em uma nova escola é sempre muito empolgante, misterioso e assustador, mas tenho a sensação de que esta vai ser a melhor de todas...
            Quem serão meus professores? Quantos colegas será que têm na turma? Qual vai ser a primeira aula?
            O sinal tocou! Hora de ir pra sala número zero oito...
          Subir a escada, dobrar a direita, no final do corredor, última sala à esquerda: é ela! Entrei.
 Sentei na última classe da direita de quem entra na sala, o fundo da sala era meu lugar preferido. Não que eu gostasse de sentar no fundo para fazer bagunça ou então para não fazer as atividades, mas porque dali eu podia ver tudo e todos; e por qual motivo?
 Porque sou um colecionador.
 O que eu coleciono?
 Histórias.

Episódio 2 - Vol. 1 - Pontas



                      PONTAS

O que torna a ponta de um lápis tão especial?
            É por ela que escorrem as marcas que deixamos em forma de letras, desenhos, rabiscos ou o que mais nossa imaginação possa inventar.
            Um lápis é capaz de deixar passar pela sua ponta, uma linha de até 56Km ou cinquenta mil palavras! (pra falar a verdade eu nunca contei, ou medi, eu li na internet, mas taí uma coisa que ainda quero fazer).
            Por isso, quando a ponta do meu lápis quebra (sem que eu faça força para isso acontecer), eu a guardo colada com fita adesiva em um pequeno caderno que uso para isso e ao lado escrevo algo que me faça lembrar daquele momento. São como memórias contadas através das pontas que vão ficando para trás. E é por isso que não uso lapiseira, para não perder o registro das emoções que cada ponta carrega consigo, emoções que fazem parte das minhas histórias.
           
            Ponta 125: hoje é a terceira ponta que desiste de continuar ligada ao meu lápis, e o que é pior, na mesma aula, mas a culpa não é do lápis, a culpa é minha; acho que tô muito tenso, e eu sei o porquê.
            Ontem à noite, eu estava brincando na sala de casa e quebrei um vaso da minha mãe. Fiquei com medo de dizer a verdade e coloquei a culpa no nosso cachorro, o Bobi. Minha mãe não gostou nem um pouco do que aconteceu e hoje pela manhã, antes de sairmos para a escola, ela deixou o Bobi preso para que ele não fizesse mais nenhuma traquinagem.
            Enquanto estou aqui, livre, graças a minha mentira, o Bobi está lá, preso por essa mesma mentira, o que me torna tão prisioneiro quanto ele.
           
            Ponta 126: decidi que vou contar a verdade quando chegar em casa; não quero mais ficar me sentindo mal; se a minha mãe me prender no lugar do Bobi eu sei que mereço... Mas se eu contar e ficar preso, vou perder o final de semana! Melhor contar só na segunda.

            Ponta 127: acho que isso é um sinal: mais uma ponta quebrada. Vou contar quando chegar em casa, vou ser honesto, foi isso que meus pais sempre me ensinaram, era isso que eu deveria ter feito desde o início.

Episódio 3 - Vol. 1 - Suculenta



SUCULENTA

Quando eu estava no primeiro ano, estudei em uma escola que nos ensinava a cultivar a terra. Aprendi a preparar a terra nos canteiros e nos vasos. Plantávamos de tudo: verduras, legumes, frutas, plantas de todo tipo e árvores. O que eu mais gostava era das flores!
De lá pra cá nunca mais deixei de cuidar de plantas e das suas flores; minha mãe faz isso junto comigo, às vezes meu pai também participa.
            Sempre que quero dar um presente especial para alguém, escolho a planta que estiver mais bonita e a entrego com muita alegria. Flores gostam de pessoas alegres, de música calma, de água fresca e de carinho.
            Já fui zoado pelos meus colegas muitas vezes, mas não ligo pra isso, porque o contato com a terra e com as plantas me acalma. Quem ri é porque nunca viu uma semente germinar, crescer e florescer. Acho que todas as escolas deveriam ensinar isso!
            A planta mais linda que eu tenho é uma Haworthia Fasciata, esse é o seu nome científico, também conhecida como Zebra, um tipo de suculenta (são plantas que têm a capacidade de armazenar água em suas folhas), que ganhei de uma colega do terceiro ano, o nome dela era Mariana!
            A gente ainda conversa pelo Whats, sinto saudade dela! Foi minha melhor amiga naquela escola. Fazíamos os trabalhos juntos, estudávamos juntos (pena que a gente não ficava junto no recreio), mas a minha classe ficava a duas classes da dela; ela também gostava de sentar no fundo da sala!
            Aquela foi minha primeira suculenta!
            Antes de mudarmos de cidade, fiz uma muda para ela.
            É muito fácil fazer uma muda de suculenta, sabia? É só preparar a terra, arrancar uma folha da suculenta e colocar essa folha sobre a terra (é a coisa mais incrível como elas nascem! Elas nascem da própria folha!).
            Quando nos despedimos, eu dei o presente. Ela me deu um abraço que eu nunca mais vou esquecer, depois me deu um beijo no rosto e me disse “a gente vai ser amigos pra sempre”. Fiquei com vontade de chorar...
Na verdade, eu chorei, não foi muito, mas eu chorei.
            Tenho certeza que um dia a gente vai se encontrar de novo, e quando isso acontecer, quero ter a suculenta mais rara e mais linda do mundo pra dar pra ela, quero dizer pra ela que senti saudade do abraço da minha mais incrível e maior amiga de todas.                                                                                             

Episódio 4 - Vol. 1 - Biblioteca



BIBLIOTECA

            Tudo o que eu mais queria era aprender a ler e escrever.
            Ainda lembro de quando entendi que as palavras eram formadas por sons e que cada som podia ser desenhado e que o nome disso era letra. Tudo o que eu precisava era conhecer o desenho de cada som e juntar.
Foi incrível quando os desenhos juntos começaram a fazer sentido, e aos poucos as palavras foram se apresentando para mim, uma a uma.
Em pouco tempo eu já conseguia ler de tudo, mas minha grande paixão eram os livros; eram não, são.
Tá certo que eu adorava quando minha mãe lia pra mim, achava ela a pessoa mais inteligente do mundo e, claro, a maior contadora de histórias do universo, mas ler sozinho fez de mim o menino mais feliz de todos. Às vezes peço pra minha mãe ler pra mim, só pra matar a saudade; ela ainda é a melhor!
Minhas professoras também eram grandes contadoras, mas notei que a cada ano que passo, cada vez elas contam menos histórias! Por que será?
Todas as escolas têm bibliotecas, pelo menos nas que estudei todas tinham. De tempo em tempo a professora levava a gente pra escolher um livro e levar pra casa. Eu sempre queria pegar mais de um, mas não podia! Eu acabava lendo o livro no mesmo dia e aí tinha que ficar esperando até a gente voltar.
Eu não entendo por que os livros têm que ficar presos em uma biblioteca! Acho que deveriam ser livres para ir e voltar.
Pena que no colégio a gente tem tão pouco tempo para ler!
Mas neste ano está sendo tudo diferente! A bibliotecária, Dona Rosa, é a mais legal de todas. No primeiro dia que fomos à biblioteca, ela contou que existem portais mágicos espalhados por toda biblioteca e que para achá-los é preciso explorar o lugar e encontrar os livros certos.
Pela primeira vez em um colégio eu pude andar por toda a biblioteca, olhar cada prateleira, ler os títulos, passar a mão nos livros, pegar, olhar, ler; e como D. Rosa disse, “encontrar o livro certo”, ou quem sabe ser encontrado por ele!

Eu queria poder ensinar todas as crianças e adultos que não sabem ler, e que eu sei que são muitas, para que pudessem ser tão felizes quanto eu sou. Quem sabe um dia!

Episódio 5 - Vol. 1 - A Professora



                                                 A PROFESSORA

- Bom dia! Antes de eu me apresentar, gostaria de fazer a chamada para poder identificar a cada um, está certo?
A turma respondeu que sim.
Era o primeiro dia de aula da professora substituta de Língua Portuguesa, mas já estávamos em agosto. Trocar de professora no meio do ano não é uma coisa muito boa, dá sempre um frio na barriga, a gente nunca sabe como vai ser, mas alguma coisa me dizia que ia ser... incrível!
- Todos já sabem seus números da chamada?
De novo a turma respondeu que sim.
- Ótimo! Vamos começar. Aluno 01...
A turma começou a rir e todos falavam ao mesmo tempo. A professora não falou nada. Ficou quieta, olhando para a turma sem demonstrar nenhuma expressão; não dava pra saber o que ela estava pensando ou sentindo, os olhos não diziam nada.
Finalmente a turma se ligou e ficou em silêncio; a professora voltou à chamada.
- Aluno 01...
- A senhora não vai nos chamar pelo nome? (esse era o Pedro)
- Apenas respondam “presente”.
- Aluno 01...
Ana, que era a número um da chamada falou:
- Não é aluno, professora, é aluna.
Ela repetiu sem levantar os olhos:
- Aluno 01...
Ana respondeu:
- Presente.
E assim ela fez toda a chamada.
- Aluno 25...
- Presente.
Ninguém estava entendendo nada, nem eu! Ela se levantou e começou a falar:
- Agora que já os conheço...
“Esperaí”, ela nem sabe o nosso nome!
- Quero que lembrem da nossa regra número 1: nas minhas aulas é proibido pensar.
A turma não se conteve, foi uma confusão, até eu estava falando: como alguém pode não pensar?
Quando as coisas se acalmaram ela perguntou:
- Alguém quer dizer alguma coisa?
Ninguém arriscou.
Silêncio.
Ela sorriu sem mostrar os dentes.
Foi um sorriso que acalmou nossos corações.
E foi aí que a mágica aconteceu...

Episódio 6 - Vol. 1 - Professora Lúcia



                                            PROFESSORA LÚCIA

A sala estava em silêncio. Estávamos esperando para ver o que aconteceria agora. A professora, muito calmamente falou:
- Bom dia!
A turma respondeu quase sem responder. Ela continuou:
- Gostaria de ouvir de cada um o seu nome completo e como gostaria que de ser chamado. Podemos fazer isso?
Correspondemos positivamente. Ela nos deixou livres para falar.
- Quem gostaria de começar?
Um a um, todos nós nos apresentamos.
- João Ricardo de Oliveira. Gosto de João.
Me apresentei. Não gosto muito de falar pra toda turma, mas quando é preciso eu falo.
Finalmente chegou a vez da professora.
- Meu nome é Lúcia de Souza Luz. Podem me chamar de Lúcia, de Lu ou de professora Lúcia, mas peço que não me chamem apenas de professora.
- Por quê? – perguntou a Rita.
- Perceberam que todos da classe se apresentaram e disseram como gostariam de ser chamados, mas ninguém disse “pode me chamar de aluno”; por que será?
- Porque esse não é o nosso nome. (foi a vez do Luís)
- Exatamente!
Eu entendi o que ela queria dizer: ela não queria ser apenas “a professora”, ela queria ser vista como gente!
Eu entendi o que ela sentia ao ser chamada somente de “professora”: ela deixava de ser um rosto, perdia sua identidade, seria lembrada apenas como “a professora de português”; e eu entendi que ela queria mais do que isso.
- E o que nos torna especiais?
Não tive dúvidas, levantei a mão e ela olhou pra mim e disse:
- Pode falar, João...
Incrível, ela já sabia meu nome! Acho que fiquei com cara de bobo, enquanto a turma esperava pra ouvir minha resposta, mas a Profi Lúcia me ajudou:
- E então João, o que nos torna especiais?
Parei de viajar e respondi:
- Sermos únicos.
Ela sorriu de novo aquele sorriso sem mostrar os dentes, a turma entendeu o que ele significava, sorrimos de volta e, sem palavras, todos batemos palmas.
Os olhos da professora Lúcia se emocionaram...
Os meus também.

Episódio 7 - Vol. 1 - Bem-vindo a bordo!



  BEM-VINDO A BORDO!

Sabe o que torna tão legal um adulto brincar com uma criança?
A gente consegue ver a criança que mora dentro dele!
E melhor do que isso, a gente consegue brincar com ela!
Adultos nada mais são do que crianças grandes, que na maioria das vezes esqueceram de como era bom o tempo em que riam e se divertiam, e choravam por qualquer coisa, e brincavam, e achavam que os dias bons sempre compensavam aqueles que não eram tão bons assim.
Eu sei que as responsabilidades de um adulto são muito grandes, mas isso não é motivo para não sorrir, ou cantar uma música, ou brincar com seu filho, ou com seu aluno.
Brincar é coisa séria!
Eu tive um professor que pensava assim.
Ele dizia que não há nada mais sério do que uma boa brincadeira.
Com ele a gente aprendeu a brincar de aprender.
Me lembro quando cheguei para o primeiro dia de aula naquela escola, eu não acreditei!
Parei em frente à sala 15 e fiquei me perguntando se eu estava no lugar certo. A professora que estava comigo confirmou:
- É aqui.
Fiquei sem palavras, mas ela quebrou o silêncio:
- O que achou?
- Demais!
A parede de fora da sala era um grande ônibus escolar, com uma pintura superlegal, a porta da sala era a porta do ônibus e as janelas da sala eram as janelas do ônibus. Eu ia estudar num ônibus!
De repente a porta se abriu e um homem com quepe de motorista apareceu, olhou pra mim, sorriu e disse:
- Como vai, meu jovem?
- Eu vou bem. – disse ainda sem entender direito tudo o que estava acontecendo.
- Você deve ser o novo passageiro!
- Isso mesmo. – respondeu a professora.
- Excelente! Pode deixar que tomo conta dele, senhorita Marcela.
- Boa viagem, João!
- Obrigado! – falei quase sem voz.
A professora Marcela deu meia volta e me deixou ali. Olhei para o motorista, quer dizer, o professor e fiquei esperando que ele me dissesse para entrar, mas não foi isso o que aconteceu. Ele olhou para mim, esticou a mão e disse:
- Bilhete e passaporte interescolar.
Eu gelei. Do que ele estava falando? Ninguém me deu nenhum bilhete, passaporte eu tinha, mas não era interescolar! Respondi meio sem jeito:
- Eu não tenho bilhete!
- Passagem?
- Também não tenho passagem!
- Passaporte interescolar, o senhor tem?
- Interescolar não!
- E como o senhor pretende embarcar?
- Embarcar? – estava tão surpreso que deixei escapar.
- Isso mesmo.
- Pensei que fosse uma sala de aula!
O professor parou do meu lado, de frente para a sala e perguntou:
- O que o senhor está vendo?
Fiquei indeciso com a resposta, mas falei:
- Um ônibus!
- Exatamente! E o que é preciso para embarcar em um ônibus?
- Uma passagem.
- Agora estamos nos entendendo.
- Mas eu não tenho passagem!
- Então vai ter que providenciar uma.
A essa altura eu comecei a me preocupar, e fui direto com o professor:
- Eu não tenho dinheiro!
- Dinheiro? Isso não é necessário.
- Mas então como eu faço pra conseguir uma passagem?
- É muito fácil, você faz uma.
Ele percebeu que eu não entendi, mas também não tive coragem de dizer, e falou:
- Você entendeu?
Respondi com a cabeça, que não.
- Eu explico: para embarcar nesse ônibus e viver todas aventuras para as quais ele vai nos levar todos os dias, você tem que produzir uma passagem, um bilhete de embarque, entendeu?
- Como?
- Como é o seu primeiro dia eu vou lhe ajudar. Aqui está, basta preencher.
Ele me deu um pedaço de papel em branco, retangular, mais ou menos de um quarto de folha. E eu, olhando para o papel perguntei:
- O que devo escrever?
- Escrever, desenhar, colorir... Use sua imaginação, seja criativo! Quando estiver pronto é só bater na porta.
- Devo fazer isso aqui no corredor?
- Lá dentro é só para quem tem bilhete.
Disse isso e entrou, fechando a porta atrás de si. E eu, fiquei ali, sozinho no corredor e, com certeza, com cara de bobo. Mas confesso que estava achando o máximo.
Tratei de pegar meus materiais e não demorei muito e já estava com a passagem pronta. Bati na porta. Ela se abriu.
- Pois não?
Estiquei meu braço e falei todo feliz:
- Minha passagem!
O professor pegou a passagem, examinou e disse:
- Não tem seu nome!
Me devolveu a passagem e fechou a porta.
Rapidamente coloquei meu nome e bati novamente na porta; ela se abriu.
- Pois não?
- Minha passagem!
Ele conferiu a passagem e com um largo sorriso falou:
- Bem-vindo a bordo, João!
Abriu a porta e eu embarquei.

Episódio 8 - Vol. 1 - O que é preciso para embarcar em um ônibus?



              O QUE É PRECISO PARA EMBARCAR EM UM ÔNIBUS?
                
O sinal tocou, corri para a sala, estava ansioso por mais um dia de aula na minha classe-ônibus ou ônibus-classe, ainda não sabia exatamente como chamar minha nova sala, mas de uma coisa tinha certeza: meu primeiro dia de aula tinha sido demais!
Quando entrei no corredor que me levaria até ela, avistei o professor Marcos parado do lado de fora com seu quepe e seu sorriso, recebendo os alunos. Estranhei que antes de entrar os alunos lhe davam um bilhete. Será que era preciso um bilhete novo para cada dia de aula?
- Bom dia, João! – meu pensamento foi interrompido pela saudação do professor.
- Bom dia, professor! – respondi.
- Pronto para mais um dia de aventura?
- Sim.
- Ótimo! Pode me dar o bilhete e embarcar. – disse isso esticando a mão.
- Eu não tenho bilhete!
- E como o senhor pretende embarcar sem bilhete?
- Quer dizer que eu preciso de um bilhete para cada dia de aula?
- Se você utilizar um transporte diariamente, mesmo que já conheça o condutor, terá que pagar passagem, ou não?
Lembrei do que o professor tinha me falado ontem, quando nos conhecemos “o que é preciso para embarcar em um ônibus?”. Que mico!
- Agora eu entendi! – falei meio sem jeito.
O pior é que enquanto eu estava ali do lado de fora, com cara de bobo, meus colegas foram chegando, cumprimentando o professor, entregando seus bilhetes e entrando. O segundo sinal tocou, o que significava que o professor ia entrar; e eu?
Nisso, uma colega apareceu na porta.
- Licença, professor!
- Sim, Ana!
- Eu posso emprestar uma passagem pro João.
- Muito gentil da sua parte.
Ela esticou o braço me oferecendo a passagem e disse:
- Você só tem que colocar seu nome e número.
Antes que eu pudesse fazer qualquer movimento, o professor falou olhando direto pra mim:
- Se você aceitar, amanhã terá que pagar a colega.
- Como? – perguntei sem pensar e foi a Ana quem respondeu.
- O que você acha? – disse isso deixando o bilhete na minha mão e voltando para a sala.
Outro mico! Tentei disfarçar entregando o bilhete para o professor.
- Amanhã vou trazer minha passagem e a dela.
- Falta preencher seus dados. Vou esperar lá dentro.
O professor entrou e eu mais que depressa tirei meu estojo da mochila, preenchi os dados – nome, número e data – entrei, entreguei minha passagem, o professor conferiu o bilhete e disse:
- Poltrona 28.
Ana levantou a mão dizendo:
- Aqui.
Meu lugar era ao lado dela.
Aquela aula era mesmo uma viagem; o nosso número da chamada era o número da “poltrona” que a gente iria sentar. O mais legal é que as poltronas mudavam de lugar e a gente nunca sabia onde iria sentar no outro dia.
No final da aula o professor avisou a turma:
- Amanhã não esqueçam dos seus passaportes.
A turma vibrou.
Antes de eu perguntar, o professor me socorreu:
- Alguém pode explicar para o nosso novo passageiro o que é, e para que serve o nosso passaporte!
A turma toda me ajudou.
Foi mais uma manhã incrível!

O sinal tocou, era o fim da aula. O professor colocou seu quepe, abriu a porta e um a um fomos desembarcando.
- Até amanhã; e obrigado pela preferência!

Episódio 9 - Vol. 1 - Voo



                      VOO

            Algumas tarefas são muito chatas pra se fazer e por isso dão o maior trabalho e ocupam o maior tempo. Outras, dão o maior trabalho, ocupam o maior tempo, mas que a gente nem vê passar, pois são muito legais!
            Meu passaporte foi uma dessas tarefas, das legais. Passei a tarde inteira trabalhando, mas valeu a pena! Ele ficou demais!

            Naquela manhã o trânsito estava mais louco que o normal. Chegamos 3 minutos depois do sinal. Corri para a sala, mas não havia ninguém. Fiquei arrasado. Achei que tinha perdido minha primeira viagem com a turma, mas um bilhete preso na maçaneta da porta salvou meu dia. Ele dizia: “Carimbe seu bilhete no guichê de entrada e dirija-se à plataforma de embarque. Saída às 7: 50”.
Eu tinha 5 minutos para carimbar minha passagem e chegar à plataforma de embarque, que eu não fazia a mínima ideia de onde ficava. Corri até o guichê. A fila dos atrasados estava terrivelmente maior do que o normal. Tentei falar com a coordenadora que autorizava as entradas, mas ela disse apenas “espere a sua vez”. Eu tava lascado!
Os próximos dois minutos pareceram durar a minha vida toda.
Finalmente minha vez chegou. Entreguei meu bilhete. A coordenadora me olhou séria, olhou para o bilhete, olhou para mim de novo, e de novo para o bilhete, parecia se mexer em câmera lenta, eu já estava a ponto de ter um treco, quando ela finalmente carimbou. Rapidamente perguntei:
- Onde fica a plataforma de embarque?
- 4º. piso.
- Obrigado!
Saí correndo. Tinha menos de um minuto para chegar ao quarto piso. Tomara que eles não tenham partido sem mim, era o que eu pensava enquanto subia o mais rápido que podia os degraus, que àquela altura pareciam infinitos.
Cheguei.
No fundo do corredor sem fim, o professor falou:
- Última chamada!
- Espera por mim!
- Que bom que você chegou, João, só estávamos esperando pelo senhor!
Eu e o meus micos.
- Trouxe seu passaporte?
- Trouxe. – disse isso já tirando a mochila das costas.
- Entregue-o junto com seu bilhete.
O professor pegou meu passaporte, olhou com atenção e depois abriu um grande sorriso dizendo:
- Pronto pra viajar, filho?
- Pronto.
- Bem-vindo a bordo!
- Obrigado!
Na porta da sala havia o símbolo de um avião e um letreiro escrito “Cia Aérea Santos Dummont – dando asas à sua imaginação!”
Entrei. Meus colegas já estavam todos sentados, como se estivessem em um avião de verdade, duas fileiras de cadeiras duplas, separadas por um corredor.
- Deixe sua mochila na área reservada para bagagens e pode tomar o seu assento. – o professor disse isso indicando o local onde já estavam as outras mochilas.
Em poucos instantes eu já estava no meu lugar, ao lado de menino com quem ainda não tinha falado.
- Oi!
- Oi.
- Gosta de viajar de avião?
- Gosto.
- Eu tenho enjoo, às vezes vomito.
Eu não sabia o que dizer.
- Brincadeira. Tô só te zoando!
Fomos interrompidos pelo professor que falava em um microfone:
- Bom dia, senhoras e senhores, aqui quem fala é o comandante Roberto. Serei o responsável por conduzi-los nesta viagem. Antes de iniciarmos os procedimentos de decolagem, gostaríamos que assistissem a um pequeno filme sobre o sonho que retirou o homem do chão e o levou a cruzar os céus e o espaço.
O filme foi muito legal!
Quando terminou o professor comandante voltou a falar. Deu as instruções sobre o voo e as regras:
- Nosso voo terá duração de 20 minutos; enquanto estivermos voando, solicitamos que não sejam usados equipamentos eletrônicos. Permaneçam todos em seus lugares e boa viagem. Por favor, apertem os cintos e boa viagem.
Ouvimos o som das turbinas sendo acionadas e do avião decolando. Em seguida o comandante falou novamente.
- Fizemos uma decolagem tranquila, o céu está limpo e o cinto já pode ser solto; obrigado!
Depois de 10 minutos de voo, o comandante passou oferecendo água, suco ou chá. Eu tomei água, meu colega Bruno tomou suco. Fomos conversando durante toda viagem, até sermos interrompidos pelo comandante.
 - Atenção passageiros, apertem os cintos para iniciarmos o procedimento de aterrisagem. Obrigado por escolherem a Cia Aérea Santos Dummont, a única que dá asas à sua imaginação.

E agora, o que será que iria acontecer?
Para onde aquele avião havia nos levado?

Episódio 10 - Vol. 1 - A Viagem



           A VIAGEM

Antes de deixarmos nossos lugares, o professor pediu que procurássemos embaixo de nossas poltronas-cadeiras um envelope. Quem encontrou foi a Gabriela. O professor deu as últimas instruções antes de deixar a sala, quero dizer, o avião.
Gabriela abriu o envelope e leu o que estava escrito nele – era uma pista que nos levaria para o destino daquela viagem – dizia: “ao norte do Cruzeiro do Sul, encontrarão o guia que os levará nessa expedição.”
– O que isso quer dizer? - perguntou Fabrício.
E todos começaram a falar ao mesmo tempo.
– Eu sei!
Todos pararam para ver quem tinha dito aquilo, inclusive eu.
– Eu sei... - repetiu Ana com a voz quase sem som.
– Então fala.
– Temos que seguir o Cruzeiro do Sul.
Todos voltaram a falar ao mesmo tempo.
Elizabeth, a menina mais pop da turma, mostrou seu domínio levantando o braço e dizendo “SILÊNCIO!”. Todos pararam e voltaram a atenção para ela; eu também. Ela olhou com ar de poderosa para Ana e disse:
– E como vamos seguir o Cruzeiro se ele só pode ser visto à noite?
Ana não disse nada, apenas caminhou até a porta.
Elizabeth soltou aquele sorriso debochado, que desapareceu sem graça quando Ana abriu a porta.
Lá estava ele, fixado na porta pelo lado de fora, o símbolo da Cia Aérea Santos Dumont, o Cruzeiro do Sul.
Todo mundo cumprimentou a colega, quer dizer, quase todo mundo.
A questão era saber agora pra que lado seguir, onde ficava o norte?
Não demorou pro Jr. dar a resposta, ele estava sempre conectado. “O braço mais extenso serve para identificar o Polo Sul”.
Fim do mistério, era só seguir o sentido contrário. E lá foi toda a turma.
No caminho encontramos mais três Cruzeiros: um em uma bandeira, outro desenhado com giz no chão e o último no teto da área coberta que ficava no térreo. Atravessamos o pátio e encontramos uma caixa. Nela estava escrito: “abram a tampa sem movimentar a caixa para não mudar a posição do último Cruzeiro”.
Abrimos a caixa com todo cuidado, e o Cruzeiro no fundo dela apontava de volta para a área coberta. Quando nos viramos, lá estava ele: um índio!
Fomos até ele. Ele ergueu os braços pedindo silêncio, e todos paramos para ouvi-lo, mas ele não falou nada!
Apenas com sinais, pediu que sentássemos, e só depois começou a falar.
Disse que seu nome era Peri, contou sobre sua tribo e apontando para o Cruzeiro no teto, falou sobre aquelas estrelas. Foi demais!
Depois disse que nos levaria até o acampamento.
Acampamento?
Seguimos nosso guia e acabamos voltando para a mesma sala, que antes era um avião, mas o cartaz da Cia Aérea não estava mais lá.
Peri deu três pequenas batidas na porta. Ela se abriu. Era o professor Roberto, que sorriu para a turma e disse:
– Sejam bem-vindos!
Entramos na sala. Ela estava vazia. O professor pediu para largarmos as mochilas e sentarmos. Organizou a turma em grupos de quatro e entregou uma barraca iglu para cada um. Era hora de montar acampamento.
Quando o acampamento estava finalmente montado, era hora do lanche coletivo. Uma delícia!
Depois disso, deitados no chão, com a sala bem escura, o professor usou o teto como telão para projetar e contar a história de planetas, estrelas e galáxias. Foi genial!
Nosso acampamento ficou montado por mais vários dias. Voltamos para outras aulas: fauna, flora, lendas e aventuras.
No dia que desmontamos tudo, fizemos a viagem de volta: primeiro com nosso guia, depois no avião, até o desembarque.
Eu não via a hora de chegar em casa e contar tudo, mostrar todas as fotos, falar das coisas que aprendi.
Por que isso?
Porque a regra número um era não contarmos nada em casa até a viagem terminar, como uma viagem de verdade.
Naquela noite, minha mãe fez um jantar especial para me receber “de volta”.
Tivemos uma noite incrível!
E, depois de contar tudo, distribuí os presentes de viagem - artesanatos que nós mesmos fizemos - tiramos uma foto em família e fomos dormir felizes; eu, esperando a próxima viagem, não do meu pai, mas da nossa turma.

Episódio 11 - Vol. 1 - O Circo



                                                            O CIRCO

Quando cheguei na frente da sala, encontrei uma fila formada diante de uma bilheteria sobre uma mesa, que não devia medir mais do que trinta centímetros.
Um cartaz na parede dava as instruções: Faça fila e aguarde a bilheteria abrir.
Sobre a porta da sala, que lembrava um céu brilhante e cheio de estrelas, estava o letreiro que dizia: Circo das Estrelas.
De dentro da sala dava pra ouvir uma música.
De repente a porta, que estava chaveada se abriu. A fila se desfez na mesma hora.
Era a professora Lúcia disfarçada de palhaça; dava pra reconhecer por detrás do nariz vermelho. Ela subiu em um cubo que estava ao lado da porta, ergueu os braços e falou:
 – Bom dia, criançada!
– BOM DIA!
– Quem quer assistir ao espetáculo do Circo das Estrelas?
– EEEEEUUUU!!!
– Então não saiam da fila – a fila voltou a se arrumar. Dentro de cinco segundos a bilheteria vai abrir e vocês poderão comprar seu ingresso!
– Mas eu não tenho dinheiro!
Bastou a turma ouvir aquela frase e a confusão estava formada.
A professora-palhaça ou palhaça-professora ergueu um pequena faixa escrita “ATENÇÃO!” e, aos poucos todos pararam para ouvir.
– Este não é um circo comum. O ingresso não pode ser comprado com dinheiro...
– Se não é com dinheiro, como a gente vai comprar?
– Vocês deverão trocar o ingresso por algo que julguem ter valor para isso.
– Qualquer coisa?
­– Qualquer coisa que tenha valor para você! Uma última informação antes de abrirmos a bilheteria: não serão aceitos pagamentos iguais; por exemplo, se o colega pagar o ingresso com um lápis, ninguém mais poderá pagar com lápis, entenderam?
Todo mundo começou a procurar nas suas mochilas alguma coisa que pudesse trocar pelo ingresso. A bilheteria abriu. O primeiro da fila era o Thiago.
– Eu tenho um lápis. – disse entregando um lápis de cor branco.
A bilheteira-palhaça-professora examinou o lápis e olhando para o Thiago disse com um leve sorriso:
– Muito original! Aqui está o seu bilhete. Aguarde na fila em frente à porta do Circo.
Colocou o lápis em uma caixa sobre a mesa, ao lado da bilheteria e continuou:
– Próximo!
– Eu tenho um apontador para o seu lápis.
– Interessante!
E assim a fila seguiu...
– Próximo!
– Uma colher de plástico de festa de aniversário.
– Uma caneta sem tinta.
– Um laço de cabelo.
– Uma bolinha de papel.
– Um anel.
– Um desenho.
Estava chegando a minha vez...
– Próximo!
Era eu.
– O que você tem pra mim, garoto?
– Não sei se a senhora vai aceitar como pagamento... mas eu gostaria de lhe dar um beijo.
– E como eu não poderia aceitar!
Dei um beijo na bochecha da professora-palhaça-bilheteira, ela me entregou o ingresso e quando eu estava me virando ela disse:
– Espere!
Eu me voltei para ela, que falou:
– Você não pegou o troco. – disse isso abrindo os braços.
Eu fui até ela e recebi um grande e gostoso abraço.
– Agora pode ir.
Fiquei emocionado!
– Próximo!
Fui para a fila e fiquei esperando com meus colegas. Estávamos ansiosos para ver o que nos aguardava.