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quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Encontros




ENCONTROS é uma série inspirada no projeto Fraternidade Sem Fronteiras e nos milhares de voluntários de tantos e tantos projetos de amor, espalhados pela Terra, que indistintamente acolhe a todos nós.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Encontros - Episódio 1



                                                                      A CAMINHO

Eu via aquela cena como se fosse um filme, alternando sua narrativa e imagens entre aquele menino e eu.
De onde elas vinham?
Não sabia, mas precisa descobrir.

                                                                                                                   * * *

Terra seca, olhos úmidos, apenas úmidos, porque chorar seria desperdiçar um bem precioso chamado água.
A fome, a sede, a dor da caminhada solitária, mas a certeza de que hoje tudo seria diferente.

                                                             * * *
                                                            
Vejo a terra seca, o olhar úmido, mas sem lágrimas, elas seriam um desperdício.
Vejo a fome, a sede e a dor da caminhada solitária, mas vejo a esperança, e mais do que a esperança, a fé.

                                                             * * *

Às vezes penso que tudo isso é apenas um sonho ruim.
Às vezes acho que já morri.
Na maioria das vezes procuro não pensar.
Não lembro da última vez que sorri.

                                                             * * *

Às vezes penso que não é apenas um sonho.
Não consigo parar de pensar.
Já não consigo sorrir.
Como poderia alguém tão distante, alguém que não conheço, alguém que nem sequer sei se existe, estar ligado a mim?
O que une os corações?
O que afasta a humanidade?

                                                             * * *

Minhas forças estão chegando ao fim.
Espero que tudo acabe logo.
Já não quero mais levantar.
Num último sopro de resistência abro meus olhos que encontram os dele.
Estavam úmidos.

                                                             * * *

Eu estava cansado.
Muitas vezes queria que tudo acabasse.
Precisava seguir minha vida.
Foi quando, pela primeira vez, nosso olhares se encontraram. Ele estava caído, e como em um último sopro de vida abriu os olhos, que encontraram os meus e uma única lágrima rolou sobre seu pequeno rostinho.
Naquele instante eu sabia que ele era real e que de alguma forma eu o encontraria.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Encontros - Episódio 2







SEM FRONTEIRAS

Existem pessoas, que mesmo sem nunca termos tido contado, quando as encontramos, são como portas que se abrem para nos mostrar o caminho, guias que nos conduzem, anjos que nos amparam e revigoram nossas forças.

Foi assim, quando cheguei naquela terra desconhecida geograficamente, mas que despertava em mim um sentimento de pertencimento, de alguma forma eu estava novamente em casa.

Por onde começar? O que fazer?

Naquela manhã, saí caminhando em meio ao nada. A terra vermelha, o sol brilhante e ardente, o silêncio. A fome, a dor, a miséria material, aplacadas apenas pela esperança. Eu precisava de respostas. Era muita pretensão para alguém que tão pouco possuía.

Voltei à pequena aldeia em que meu guia, a quem já sentia como um irmão, me esperava. Estava na hora de voltar.

Quanto à criança dos meu sonhos, eu a encontrei em muitos olhares, ela não era apenas uma, ela era muitas.

Quando o avião levantou voo, senti uma parte de mim sendo deixada para trás, tive vontade de chorar, e chorei. Uma mão tocou a minha e uma voz suave falou ao meu ouvido “um coração sensível sempre encontra outro que sente como ele”. Era o sopro da fé que me renovava.

Olhei pela janela e vi a Terra cada vez mais distante, sem divisões, de braços abertos para todos, como mãe que acolhe o filho e imaginei o mundo uma grande fraternidade, uma fraternidade sem fronteiras.

domingo, 15 de setembro de 2019

Encontros - Episódio 3









O DIÁLOGO DO SILÊNCIO

Naquela tarde eu não queria brincar. Meu coração batia forte, como se algo muito especial estivesse para acontecer, e estava.

                                                             * * *

A cada passo que eu dava, o corredor se tornava mais longo. Era a primeira vez que eu visitava aquela instituição, minhas mãos estavam frias.

                                                             * * *

Cheguei nesse lar com dois anos, hoje tenho nove.

                                                             * * *

Quando parei em frente à sala de recreação, minhas pernas se imobilizaram como âncoras.
A senhora que me acompanhava perguntou se estava tudo bem, no que respondi com outra pergunta: “onde fica o pátio?”

                                                             * * *

Sentada em um pequeno banco colorido, eu olhava fixamente para a porta que dava acesso ao pátio, e antes de ela surgir eu já sabia que era ela.

                                                             * * *

A luz do sol encontrou meus olhos ao chegar à porta que dava acesso ao pátio; por alguns instantes não consegui enxergar direito.

                                                             * * *

Talvez ela não tivesse me visto! Fiquei em pé.

                                                             * * *

O foco começava a voltar aos meus olhos.

                                                             * * *

Eu sabia que não poderia ir ao encontro dela, por isso fiz uma tentativa desesperada: subi no banco.

                                                             * * *

Esfreguei meus olhos e, ao abri-los, como uma flecha, meu olhar encontrou o dela. Queria correr ao seu encontro, mas minhas pernas não obedeceram.

                                                             * * *

Eu queria correr ao encontro dela, mas era contra as regras; corri na direção oposta.

                                                             * * *

Fui em direção a ela. Estávamos ambas visivelmente nervosas. “Por que você fugiu?” – perguntei.

                                                             * * *

“Fiquei com medo.”

                                                             * * *

“Medo de quê?”

                                                             * * *

“De que a senhora não me reconhecesse.”

                                                             * * *

Nos abraçamos demoradamente, em um perfeito diálogo do silêncio, daquele em que só os sentimentos falam.

                                                             * * *

“Chegamos!”

                                                             * * *

O aviso do motorista me trouxe de volta de minhas lembranças. Meu coração bateu forte. Desci do carro. Meus pés tocaram aquela terra vermelha. Eu sabia que tinha encontrado os corações ligados ao meu e ao de minha mãe, com quem aprendi que ser voluntário é viver sem fronteiras.

sábado, 14 de setembro de 2019

Encontros - Episódio 4





                                                   JANELAS

Se você pudesse dispor hoje de uma quantia para viver bem, qual seria o valor?
De quanto você precisaria para viver da forma como imagina?

Eu já tinha mais do que um dia imaginei, mas descobri que viver bem vai além do que o valor da sua bancária.

Noite após noite, festa após festa, tudo se repetia, pessoas em busca de prazer, status, oportunidades para lucrar mais e assim ter mais prazer, status e lucrar ainda mais; e eu estava no meio disso tudo e também fazia parte disso tudo.

É fácil viver assim, basta não olhar pela janela, mas naquela manhã isso estava para mudar.

O aniversário do meu filho se aproximava, e o seu pedido me surpreendeu.

“Quero uma semana da sua agenda.”

“Uma semana? Não sei se tenho todo esse tempo.”

“De que adianta ter dinheiro e não ter tempo?”

Aquele argumento me atingiu em cheio. Meu filho estava crescendo rápido e talvez eu não estivesse me dando conta.

“Tem razão. E o que você vai fazer com uma semana da minha agenda?”

“Vou te levar em uma viagem.”

“E pra onde nós vamos?”

“Vai ser surpresa.”

“Legal!”
Liguei para minha secretária e dei a ordem.

“Pronto, temos a nossa semana.”

Ele me abraçou apertado e disse “o resto deixa comigo.”

Alguns meses depois, quando desembarquei e meus pés tocaram aquela terra vermelha, não imaginava o significado daquilo tudo.

Meu filho segurou minha mão e falou: “Chegamos.”

“O que viemos fazer aqui?” – pensei em voz alta.

“Crescer.” – falou ele do alto de seus 10 anos.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Encontros - Episódio 5




              
VOLUNTÁRIO

Quem já sentiu o fim da vida sabe o que significa uma segunda chance.

Eu estava caído quando ele chegou, mal pude ver seu rosto, nada consegui dizer, senti apenas meu corpo deixando o chão; se aquele fosse o fim, seria feliz.

A fome não é a dor maior, o abandono nos mata antes, e quando a morte chega, leva apenas nosso corpo, porque nossa humanidade há muito tempo já nos deixou.

“Fica comigo!” – a voz vinha de longe, mas era carregada de um sentimento que eu não sentia desde que minha mãe partiu, amor.

Puxei o ar com todas as forças que ainda tinha, eu queria ficar, e fiquei.

Aos poucos fui me recuperando.

Ainda lembro do primeiro prato de comida que recebi. Olhei pra aquilo tudo, só pra mim. Comi a metade e devolvi a outra.

“Você não tá com fome?” – foi o que ele me perguntou, parando também de comer.

“Pra quem não tinha nada, ter a metade é muito. Quero que outra pessoa também se alimente.” – foi o que respondi.

Ele chorou.
Eu também.

“Se é o que você deseja, é o que vamos fazer.” – Ele me devolveu o prato, pegou o seu que também estava pela metade e disse: “Vem comigo.”

Não precisamos andar muito para encontrarmos dois irmãos à beira da estrada. Eu conhecia aquele olhar. Nos aproximamos e oferecemos nossas comidas. Os dois sorriram, um sorriso que eu também conhecia. Pegaram os pratos. Um deles ergueu o braço e fez um sinal, duas meninas menores surgiram, e o que eram duas metades, alimentaram quatro, que depois daquela cena foram acolhidos por nós.

Naquele momento eu soube o que faria com minha segunda chance. Acredito que ele também sabia.

Eu me tornaria, em tempo integral, um voluntário.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Encontros - Epísódio 7




ENCONTROS

Quando o homem se reúne em torno de uma causa, possui uma força transformadora capaz de realizações memoráveis.

A grande questão é o que fazemos com essa capacidade, se nos reunimos para o bem, ou para o mal.

Tanto para um, quanto para o outro, os encontros acontecem, os pensamentos se completam e os corações se acolhem.

Há quem acredite que exterminar os mais fracos é a solução para os problemas do planeta, para outros, a única solução e caminho é o do amor.

Para esses, a dor do outro é sua também, e não há como ser plenamente feliz em meio a tanta desigualdade.

São esses corações, que mesmo em meio a todas as adversidades seguem determinados a mudar, nem que seja uma única história, pois sabem que a diferença se faz na individualidade e que não existe maior ou menor valor, existe vida, e é isso o que importa.

São anônimos, de todas as partes do mundo, unidos pelo mesmo sentimento, pela mesma língua, pelo mesmo pensamento: fazer o bem.

Sem reconhecimento ou aplauso, sem plateia ou manchete, somente para responder ao chamado do próprio coração, que unido a outros, formarão apenas um, que baterá forte, dando força a muitas mãos, transformando a lágrima em sorriso e a dor em esperança.

Quem encontra o outro, encontra a si mesmo e encontrando a si, o homem encontra a verdadeira natureza de Deus.

Encontros - Episódio 6





                                                                ESCOLHAS

Para quem não crê na imortalidade da alma, tudo o que nos acontece não passa de mero acaso.

Por outro lado, para aqueles que assim não pensam o acaso não existe.

O que não significa que tudo esteja escrito, afinal, temos a capacidade da escolha e é isso que vai determinar se algo vai acontecer ou não.

Minha vida estava paralisada, em fase terminal.

Uma sequência de escolhas mal feitas me trouxeram a esse momento, que eu julgava ser o fim.

Nada mais fazia sentido.

A campainha tocou.

Minha primeira escolha foi não atender.

A campainha tocou novamente.

Decidi me livrar logo de quem quer que fosse.

Abri a porta.

“Eu posso entrar?”

Era minha vizinha do 608.

Minha primeira escolha? Mandá-la embora, claro, mas o seu sorriso me fez mudar de ideia.

“Entre.”

Ela queria ajuda para a produção de um evento beneficente, e como sou publicitário, ela pensou que talvez eu me sensibilizasse e ajudasse, sem remuneração, é claro.

No começo eu só queria que ela fosse embora, mas seu entusiasmo era contagiante.

A noite passou sem que notássemos. A campanha estava pronta. Eu estava apaixonado – por ela e pelo projeto.

Um ano depois, estávamos fazendo nossa primeira viagem juntos.

Quando descemos do carro e nossos pés tocaram aquela terra vermelha, nossas mãos emocionadas se encontraram naturalmente.

“Obrigado por me trazer de volta à vida.”

“Obrigada por ter escolhido abrir a porta.”

“Casa comigo?”

“Escolha difícil!” – ela disse sorrindo.

Uma música de boas-vindas, cantada pelas crianças do projeto, preencheu o espaço.

Acaso ou não: Vida.