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quinta-feira, 11 de abril de 2019

Episódio 1 - Inesquecíveis!




                                                       INESQUECÍVEIS!


            O que faz um ser humano feliz?
            O momento que vive ou suas lembranças desses momentos?
            O que são as memórias e o que elas representam?
           
 Ser feliz ou depressivo?

          Depende daquilo que carregamos conosco, das nossas memórias e da capacidade de visitarmos e selecionarmos os arquivos emocionais e afetivos, que determinarão o estado em que queremos viver.

       Ser professor é carregar consigo centenas desses arquivos – momentos de total estresse e outros de sublime grandeza – e escolher a qual deles dar maior destaque.
É encontrar no gesto simples, no olhar carinhoso ou na apoteose de uma apresentação – que jurávamos que não ia dar certo – o significado da escolha da nossa profissão.
É ter a certeza que os dias ruins nunca serão em maior número e mais importantes que os bons.
E que verdadeiras e profundas mudanças não são feitas apenas em casa, ou pela mídia, elas também passam por nossas mãos.
É acreditar que somos capazes de fazer mais do que apenas repassar conhecimentos.
É encontrar na Pedagogia do Amor a linguagem capaz de aproximar corações.
É fazer de cada encontro uma possibilidade e não uma obrigação.
        É cultivar o maior número possível de lembranças positivas, para que se sobreponham naqueles momentos menos felizes e não nos deixem esquecer quem verdadeiramente somos.
           E assim, tornar nossos encontros e vivências na Educação, Inesquecíveis!

      Compartilhar esses momentos é abrir portas para que as lembranças de outras pessoas possam também entrar.

Episódio 2 - Ponta 88




                                                                                        PONTA 88


Existem momentos na vida em que achamos que nada mais faz sentido.
Esse era um daqueles dias.

     Como chegamos a isso é a grande questão, porque na maioria das vezes, nem sabemos ao certo onde tudo começou.

            Mas nesses casos, de uma coisa temos certeza, chegamos ao insuportável.

      Passei o final de semana sem querer ver o dia ou a noite, celular desligado, desconectada do mundo, olhos inchados, corpo dormente, pensamentos confusos, fragmentada em mim mesma.
            Mas o pior ainda estava por vir, pois a manhã seguinte revelaria uma nova segunda-feira e junto com ela um novo dia de trabalho.

            Quando cheguei na escola naquela manhã, óculos escuros, pele apagada, ânimo vazio, minhas colegas foram completamente solidárias, ao que agradeci, mais por obrigação, e sem dar muito espaço ou chance de entrada, permaneci ali, presa a um mundo de dor, frio, escuro, pálido.

            O sinal tocou.
            Eu não queria ir.
            Pensei em desistir.

            – Você tem um aluno novo começando hoje.

            Aquela fala da supervisora soou como uma lâmina fria que desferia o golpe fatal, “não me faltava mais nada”.

            Entrei na sala, e em meio ao caos nosso de cada dia, percebi o aluno novo sentado ao fundo, na última classe à direita de quem entra, avaliei a situação com a precisão que a experiência me doutorava, “conheço bem o tipo”.
            Passei uma atividade qualquer e me joguei à deriva do tempo, perdida no espaço existencial que os minutos consumiam lentamente, um a um, em um interminável loop de sessenta segundos.
          Ainda faltavam quinze longos e intermináveis minutos para o intervalo, quando resolvi dar uma volta pela sala, a fim de descarregar um pouco do ácido que me corroía, em cima de algum espertinho que me desafiasse.
            Olhei para o novato. Era ele. Caminhei lentamente em sua direção.

            – Terminou a tarefa?
            – Sim, senhora.
            – E o que você está fazendo?
            – Escrevendo.
            – Que maravilha, um escritor! – a minha ironia era evidente – Posso ver? – falei aquilo tomando o pequeno caderno sem dar nenhuma escolha ao menino.

            O que encontrei me surpreendeu!

            – O que significa?
            – É uma coleção.
            – De pontas de lápis?

            Ele apenas assentiu com a cabeça.
            Aquilo me deixou intrigada.

            – Por que, pontas?
            ­– Porque elas são memórias.
            – Memórias? Como assim?
            – Quando uma ponta quebra sem eu fazer esforço, escrevo o que eu tô sentindo naquele momento.

            Aquilo era pessoal! Íntimo!
            E isso me fez voltar à dignidade.

            – Posso ler?

            Ele olhou bem nos meus olhos e novamente apenas assentiu com a cabeça, baixando o olhar em seguida.
            Eu voltei minha atenção para a última ponta que havia sido fixava por uma fita adesiva e segui a leitura do registro.

            Ponta 88: medo, foi isso que senti quando ela se aproximou; é estranho, porque eu nunca tinha tido medo de nenhuma professora, talvez seja a tristeza que ela carrega e espalha na turma, que assim como ela, também é triste. Se eu pudesse espalharia alegria na sala. Tomara que eu também não me torne triste.

            O sinal tocou.
            Devolvi o caderno, me abaixei ao lado do menino e apenas consegui dizer:

            – Você me ajuda a ser alegre?

            Ele abriu um largo sorriso, me abraçou apertado e falou baixinho no meu ouvido:

            – Ajudo.

Episódio 3 - Quem sou eu?




                                                
QUEM SOU EU?

              – Professora!

          – Sim!? – respondi sem me voltar e continuei escrevendo no quadro.

            – Professora!

            – Pode falar. – novamente respondi sem me voltar.

            – Nada não.

            Ouvi o som de uma movimentação suspeita e então me voltei. José Antônio tinha virado sua carteira e sua cadeira e estava sentado de costas para o quadro. Os colegas riram, eu subi o tom...

            – JOSÉ ANTÔNIO!

            – Sim!? - ele respondeu de costas.
            – Olhe pra mim quando eu falar com você!
            – Não posso!
            ­– Não vou falar de novo!
            – Só tô fazendo que nem a senhora me ensinou!

            O silêncio da turma foi ensurdecedor. Todos os olhinhos voltados para mim, aguardando o desfecho daquela cena.
Em flashback pude me ver mais jovem, dando aula para a minha primeira turma: olhos nos olhos para falar, atenção com o que me era dito, empatia; em que momento eu havia perdido isso?
Caminhei lentamente até o seu lugar, parei na sua frente, me abaixei, busquei seus olhos, ele encontrou os meus, e eu lhe disse:

– Obrigada, por me lembrar quem eu sou!

Episódio 4 - É só uma frase




                                             É SÓ UMA FRASE


Acreditar no outro é acreditar em si mesmo.

Arthur era um menino com grandes dificuldades de aprendizagem, um dos tantos que passam pelos bancos escolares e que nos desafiam por suas histórias, ou nos afastam por elas.
Alunos como Arthur nos levam à superação de nós mesmos como profissionais e seres humanos, ou nos mostram o tamanho da nossa mediocridade ao aceitarmos que aquela criatura nada tem para oferecer e, por isso, o máximo que podemos fazer é promovê-lo de ano, sem dar muita importância para aquilo que deixamos de contribuir.

Aprendi que o estímulo deve fazer parte do nosso trabalho, e mesmo para casos como o de Arthur, lá estou eu escrevendo pequenas frases motivacionais, acreditando que assim posso gerar, em algum momento, o despertar do potencial que habita em cada um.

Uma das frases que mais usava nesses casos era: Eu acredito em você!

E foi isso que escrevi em uma de todas as provas que Arthur não atingia o mínimo esperado, e segui minha aula, feliz!

Mas, naquela tarde, ele não passou bem, e eu o encaminhei ao setor responsável, para que pudesse ser observado.
Enquanto a turma realizada uma tarefa, fui até o lugar que ele ocupava, para registrar o ocorrido em sua agenda e sem querer encontrei escrito abaixo do meu “acredito em você”: é só uma frase.

Foi como se o chão estivesse aberto sob meus pés.
Entendi que o que eu usava como forma de mostrar que eu me importava, não passava de um clichê barato.

Aquele momento mudou minha relação comigo mesma.
Não escrevo mais apenas frases, vivo cada uma delas.

Episódio 5 - Vivo




            VIVO

Comecei minha carreira, cheio de sonhos, verdades e vontades.
Eu acreditava que poderia mudar o mundo.
Olhava para colegas desempenhando sua função, sem grandes expectativas ou esperanças, e aquilo me incomodava, porque pensava que se havia insatisfação, que mudassem de profissão, deixassem para aqueles, que assim como eu traziam em si a força da mudança.
Durante muitos anos, acumulei experiências e projetos de sucesso, que causaram prazer em mim e nos meus alunos e que deixaram marcas positivas em todos nós.

Mas, aos poucos, fui permitindo pequenas interferências nas minhas convicções e o brilho com que atuava já não era tão intenso, as luzes que iluminavam o palco desse espetáculo chamado Educação, lentamente estavam sendo baixadas, e tudo o que eu esperava era o momento do blackout para que pudesse sair de cena.

Assim os dias se sucediam, e ao iniciarmos um novo ano, a questão era: mais um ano, ou menos um ano?

Estava contando os dias para o final do ano, e depois de mais uma aula comum, ouvi o que faria eu acordar: “eu odeio língua portuguesa!”.
O impacto que isso causou em mim foi épico, catártico, implosivo.
Eu, que tanta alegria já havia proporcionado, agora estava causando dor.

Angústia – foi o que senti.
Recomeçar – foi o que decidi.

Reencontrei a mim mesmo.

Hoje, não penso mais em mudar o mundo, quero tocar corações.

            Hoje, me sinto mais vivo do que nunca!

Episódio 6 - O Primeiro Dia




                  O PRIMEIRO DIA


Era véspera do início de mais um ano letivo.

            – Profi Cris?
            – Sim!
            – Posso lhe dar um abraço?
            – É claro!

 Nos abraçamos longa e afetuosamente.

            – Acho que a senhora não lembra de mim; já faz uns vinte anos... Eu sou a Ana...
            – Clara Jardim.
            – A senhora lembra de mim?
            – Pode ter certeza que sim.
            – Sempre lembro de como a senhora foi importante para mim no meu primeiro dia de aula; eu estava apavorada, a senhora segurou minha mão e disse...
            – Eu sei como você está se sentindo, porque eu também estou apavorada.
­            – E eu perguntei; é o seu primeiro dia também?

            Nós duas sorrimos um sorriso de lembrança boa.

            ­– Eu respondi que sim, e pedi sua ajuda, e você me ajudou. Por isso nunca esqueci de você.
            – A senhora tá me dizendo que aquele era realmente o seu primeiro dia?
            – Como professora? Sim.

            Nos abraçamos novamente. Desta vez com um novo significado, o da gratidão. Ao nos separarmos, Ana ficou segurando as minhas mãos e disse:

            – Amanhã também vai ser meu primeiro dia.

            Olhei fixamente para ela tentando adivinhar e arrisquei...

            – Como professora?
            – Isso mesmo!

            Mais um abraço carinhoso.

            – Eu tô apavorada! Acho que mais do que aquele dia.
            – Manhã ou tarde? - perguntei.
            – Manhã.
            – Eu estarei lá.
            – Jura?
            – Pode ter certeza.

            Aquele foi mais do que um abraço, foi a confirmação de que havia feito a escolha certa no dia em que decidi ser professora.

Episódio 7 - Inesquecível!




INESQUECÍVEL!

            “Muitas vezes me pego olhando para aqueles rostinhos a minha frente e fico pensando em como será o futuro de cada um, suas alegrias, tristezas, sucessos e decepções, quem vai fazer o que, e no que eu terei interferido ou influenciado em cada escolha.
            Serei a professora que passou despercebida?
            Que marcas deixarei?

            Às vezes quero não pensar nisso, mas como não pensar, quando lidamos diretamente com pessoas, pelas quais somos responsáveis, mesmo que por uma pequena parcela, por aquilo que elas serão e farão?

            Por isso, me esforço para ser inspiração.
          Quero que saibam e sintam que sou honesta comigo mesma, porque só assim posso ser honesta com os outros.
            Quero que percebam que realização profissional é fazer o que se gosta, e eu faço o que gosto.
            Quero sempre mais que o mínimo, porque merecemos o máximo.
            Quero não desperdiçar o tempo, quero viver o presente, na esperança de que o agora vai estar no amanhã.
            Quero poder olhar nos olhos com sinceridade.
            Quero poder olhar para trás e dizer “faria tudo de novo”.
Quero não apenas ser professora, quero ser Inesquecível!”
           
             Minha vó escreveu esse texto após a ansiedade natural de quem iniciava uma caminhada – quinze dias depois de ter assumido sua primeira turma – para lembrar por que escolheu ser professora.
            Ao longo de 40 anos, ele foi a voz daquela menina cheia de vida, sonhos e desejos.
            Voz que também acompanha minha mãe, e que agora também me acompanhará, porque assim como a vó Marcia e minha mãe, eu também quero ser mais do que professora, quero ser... Inesquecível!

quarta-feira, 10 de abril de 2019

INESQUECÍVEIS!



INESQUECÍVEIS!


A série pra quem vive a emoção de ser professor!



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