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quinta-feira, 25 de abril de 2019

Episódio 1 - Contador




                            CONTADOR

Sou Contador.

E como contador já contei mais de mil histórias, pra diferentes plateias, algumas bem grandes, outras nem tanto, algumas deste mundo, outras, de mundos tão distantes, que só de lembrar já me bate um lesera.

Moro na cidade dos Contadores.
É lá que todos os Contadores deste mundo, e de outros, também moram.

O que mais se faz na nossa cidade é contar histórias, de todos os tipos, deste mundo... e de outros.
Algumas histórias são inventadas, mas a maioria, eu lhes garanto, são reais!

Na cidade dos Contadores existe uma biblioteca tão grande, mas tão grande, que contam, que alguns Contadores desavisados entraram, se perderam, e só foram encontrados anos mais tarde, e outros, continuam perdidos até hoje!
Nessa biblioteca, estão todas as histórias que já foram contadas pelos Contadores; é história que não tem fim, deste mundo... e de outros!
Eu mesmo, a primeira vez que entrei nela, levei mais de uma semana pra encontrar a saída – essa é uma história que vale a pena ser contada, porque foi lá que encontrei a mais encantadora de todas as Contadoras, foi ela quem me salvou; um dia eu conto.

Contadores não são seres mágicos, na verdade alguns são, a bem da verdade, a maioria são; tudo bem, eu confesso, todos são, pelo menos os que vivem na cidade dos Contadores.

Como foi que me tornei Contador?

Ninguém se “torna” Contador, você já nasce Contador.
Às vezes leva um tempo pra descobrir, se bem que lá no fundo a gente já sabe, a gente sente, que mais cedo ou mais tarde, as histórias vão te chamar, para que você seja a voz delas.

Episódio 2 - Primeira fila




                   PRIMEIRA FILA

  Eu terminava de guardar minhas contações na mala, quando senti aquela mãozinha me tocar de leve e aquela vozinha suave dizer:

        - Moça!

       Me voltei, já com um sorriso nos lábios, desses em que a gente não chega a mostrar os dentes, mas que transmitem toda a confiança e satisfação que queremos passar e estamos sentindo e respondi ao chamado:
            - Oi!
            Ela foi direta:
            A senhora é de verdade?
            - O que você acha? – disse isso oferecendo-lhe minha mão.
            Ela segurou com as duas mãozinhas, examinando cuidadosamente.
            - Acho que sim.
            E foi a minha vez de perguntar:
            - E você?
            Foi a vez dela me oferecer a pequena mão.
            Eu examinei, olhei bem de perto, cheirei, ela riu, olhei bem nos olhos dela e falei:
            - Eu descobri o seu segredo!
            - Que segredo?
            - Você é filha de uma fada!
            Ela riu gostoso.
            - Eu sabia! Só as filhas de fadas riem desse jeito.
            - Minha mãe é professora!
            E eu não perdi a deixa:
            - Sabia de que todas as professoras são fadas?
            Ela me olhou séria...
            - É verdade?
            - Verdade verdadeira. – respondi e mudei de assunto – Gostou da história?
            - Mais ou menos.
            Sinceridade de criança é um santo remédio, mas a gente tem que querer tomar. Às vezes é meio amargo, quase sempre, mas faz um bem danado. Sentei para ouvi-la.
            - Então me conta, por que mais ou menos?
            - Da história eu gostei.
            - E do que você não gostou?
            - Eu queria estar mais perto, fiquei muito longe.
            - Mas agora estamos juntinhas! – abracei-a.
            - Mas agora você não tá contando nenhuma história!
            - Mas eu posso contar!

            Seus olhinhos brilharam! Contei de forma sintetizada, mas muito inspirada, a história da menina que mudou o mundo.
            Quando terminei ela me disse:
            - Foi a história mais linda que eu já ouvi.
            Me deu um beijo e saiu, com seus passinhos de fada, deixando um rastro de luz, que só os Contadores conseguem ver.

            Aquilo me fez pensar muito, e foi desse encontro que nasceu o projeto “Primeira Fila”, um trabalho intimista, em que todas as crianças sentam na primeira fila.
            É claro que trabalho mais, mas o prazer em contar histórias nunca foi tão grande, porque eu divido e convivo com cada criança, o instante único, que certamente elas nunca mais esquecerão.

Episódio 3 - O último contador




O ÚLTIMO CONTADOR
           
            Contar histórias é um ato de amor.
     O primeiro requisito para ser um Contador é o coração.
            A verdade no olhar de quem conta é o ponto de encontro com o outro.
            A essência da contação é a emoção!

      
            Esse era eu, quando me descobri Contador.
            Mas há algum tempo já não sabia mais o que de fato eu queria.
            A contação havia se tornado apenas um trabalho.
            Mecânico.
            Capaz de extrair as reações desejadas da plateia sempre disposta a se encantar.
            Artificial.
            Que tipo de Contador eu havia me tornado?

            Naquela tarde, me dirigi à Cidade dos Contadores disposto a desistir. Era o fim.

            Ao me aproximar da cidade percebi algo diferente: não havia movimentação alguma, o único som que se ouvia era o do silêncio.
            À medida que avançava pelas ruas, constatava que de fato a cidade estava deserta.
            O que havia acontecido?
            Onde estavam todos?
            Corri para o centro de convenções; ninguém.
            Voei para a Praça das Contações; nada.
            Só havia mais uma possibilidade: a Biblioteca.
            Num piscar de olhos eu estava em frente à entrada.
            A Bibliotecária Mãe estava colocando a chave na fechadura – eu nunca tinha visto a Biblioteca fechada!

            - O que aconteceu? – perguntei.
            - Foram todos embora.
            - Pra onde?
            - E isso importa?
            - Mas foram embora por quê?
            - Cansaram de ser Contadores.
            - E quem vai contar as histórias?
            - Você tem alguma sugestão?
            - Eu serei o último Contador.
            - Belo título para uma história.
            - Então está decidido, pode abrir a Biblioteca que eu vou ficar.
            - Se você acha que está fazendo um favor pra humanidade, desista, vá embora; se está fazendo porque acha que é um herói, também não precisa ficar.
            - Pensei que a senhora fosse me apoiar!
            - Pode ficar com a chave. – disse isso me entregando a chave.
            - E o que eu faço agora?
            - Você não quer salvar a história da Contação? Divirta-se!

            Ser o último Contador era uma responsabilidade e uma tarefa gigantesca!
            Eu poderia não aceitar.
            Eu poderia recusar?

            Coloquei a chave na fechadura.
            Deixei minhas coisas no pé da escada.
            Voltei minhas costas...
            E fui embora.

Episódio 4 - O verdadeiro contador




                                             O VERDADEIRO CONTADOR


            O que torna o desenho de uma criança tão especial?
            Observe a mistura das cores.
            A força.
            A intensidade.
            A energia que existe por trás de cada traço, em cada camada de cor, em cada movimento.
            Observe a relação que existe entre ela e a palheta que você não vê.

            Eu explico.

            Quando crianças, nossa capacidade sensorial para perceber a luz que há em cada cor é plena.
O olho de uma criança consegue captar além do que o olho de adulto pode ver.
Por que perdemos isso?
Por fatores biológicos e, principalmente, emocionais.

Isso acontece também com a música e com nossa relação com as histórias que ouvimos, porque antes de aprendermos a ler, ouvimos.

Algumas pessoas são capazes de preservar essas faculdades, e isso explica a genialidade de alguns artistas.
Quadros que encantam gerações, muitos deles até bem “simples”, mas que trazem consigo a luz que o artista, com o olhar da criança e a técnica do adulto, foi capaz de reproduzir para que o olho do homem que deixou esquecido na infância o encantamento da vibração que o belo transmite, pudesse reencontrar nesse contato, a sensibilidade que um dia já vivenciou.

Por isso, os artistas que são capazes de transmitir essa energia, são aqueles que produzem o que chamamos obra de arte.

Isso também ocorre com a contação.
O verdadeiro Contador, carrega consigo não apenas uma história que tira de dentro da mala, ele traz impressa na alma, as páginas que registram mais do que uma narrativa ficcional, porque ele acredita, ele vive, e ao fazer isso, ele as torna real.

Em que momento deixamos, perdemos ou negamos a pureza e a autenticidade das nossas emoções?
Em que momento deixamos de ver, sentir e acreditar?

Eu sabia que as respostas estavam em mim mesmo; mas como encontrá-las?

Eu precisa voltar à Cidade dos Contadores, mas para isso, antes era preciso reencontrar o caminho que levava a ela.

Episódio 5 - Contatória Imersiva




                                CONTATÓRIA IMERSIVA

Qual o verdadeiro combustível que alimenta um contador, ou no meu caso, uma contadora?

Antes do projeto Primeira Fila, eu achava que era o grande público, mas descobri que a energia que eu buscava, nunca esteve na quantidade.

Assim, ao me reaproximar de cada criança, pude me redescobrir como Contadora.
 Mas eu sentia que ainda faltava alguma coisa, e a resposta veio no final de uma contação, quando aquela mãozinha subiu, acompanhada de todas as emoções que era capaz de representar.

- Moça!
- Pode falar, amiguinho!
- É verdade que os Contadores têm poderes mágicos?

Saia justa, mas vamos entrar na brincadeira.

- Os verdadeiros Contadores possuem um grande poder.
- Qual?
- De encantar aqueles que ouvem suas histórias.
- O que mais?

Adorei esse garoto!

- Também são capazes de levar as crianças para dentro das histórias.
- Como?
- Através da imaginação! Mas essa é outra história...

Hora de encerrar a sessão.
Nos despedimos. O garoto foi o último a me abraçar...

- Dá próxima vez, leva a gente pra dentro da história, não só na imaginação, eu sei que você pode.
-  Prometo que vou pensar no assunto.
- Mas faz isso antes de eu crescer!
- Como é seu nome?
- Eduardo.
- Vou fazer o possível! Te vejo na próxima história.

Assim nasceu “Eduardo, o menino que queria entrar na história”, e junto com essa história, o projeto Contatória Imersiva, uma vivência lúdico sensorial, em que a história é contada dentro de um cenário fechado, 3D.
Para essa primeira experiência, construí uma cúpula retrátil, que em determinado momento da narrativa era fechada, transportando todos para dentro da história.
A estreia do trabalho foi na escola do Eduardo, que no final da contação me abraçou longamente e falou no meu ouvido:
- Foi demais!

Adorei aquele garoto!

Episódio 6 - As cores da contação




                                                AS CORES DA CONTAÇÃO


A rua, repleta de pessoas apressadas, cada uma dentro da sua própria história.
Eu, perdido em meio ao movimento das ondas humanas, que me levavam de um lado para o outro, como um náufrago, buscava desesperadamente algum destroço da embarcação ao qual pudesse me agarrar.
Onde estariam os Contadores? Por detrás de qual dos rostos estariam escondidos, assim como eu? Como reconhecê-los?

Aquele foi mais um dia que me distanciava ainda mais de quem eu era, ou pensava que era.
A cidade perdia suas cores, o brilho da luz, cada vez mais opaco, tornava a paisagem e os sorrisos sombrios.
A tristeza estampada nos olhos de quem transitava, refletiam os meus mais íntimos sentimentos.

Como foi que cheguei a esse ponto da história?
Talvez fosse a hora de aceitar o fim dessa narrativa...

Ou não!

O telefone tocou.
Abri minha pasta executiva para atender a ligação.
Mais um toque.
Com a mão enfiada dentro dela, vasculhei seu interior na busca do aparelho.
Outro toque.
Minha mão parou ao envolver um objeto, que me pareceu familiar, mas que com certeza não era um celular e, após uma breve hesitação, deslizou para fora da pasta, revelando o que até então era apenas uma suspeita.

Outra vez o telefone me chamou.
Em um mergulho certeiro, minha outra mão foi ao fundo e trouxe consigo o aparelho.
Eu conhecia o número e sabia do que se tratava, mas eu também sabia que teria que escolher somente o que uma das mão segurava.

Ergui os olhos mais uma vez e contemplei o quadro que se passava a minha frente...
Com que cores eu queria pintar essa tela?

Eu sabia a resposta.

Desliguei o celular e guardei-o novamente na pasta.

Agora, com as duas mãos, segurei aquele que foi o primeiro objeto “mágico” que usei em uma contação: um óculos para enxergar a imaginação.

Eu seria capaz de usá-lo novamente?

Pode apostar que sim!

quarta-feira, 24 de abril de 2019

CONTADORES



                         




  CONTADORES


     A série para quem sabe 
que não é apenas uma história!


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