PRIMEIRA
FILA
Eu terminava de guardar minhas
contações na mala, quando senti aquela mãozinha me tocar de leve e aquela
vozinha suave dizer:
- Moça!
Me voltei, já com um sorriso nos
lábios, desses em que a gente não chega a mostrar os dentes, mas que transmitem
toda a confiança e satisfação que queremos passar e estamos sentindo e respondi
ao chamado:
- Oi!
Ela foi direta:
A senhora é de verdade?
- O que você acha? – disse isso
oferecendo-lhe minha mão.
Ela segurou com as duas mãozinhas,
examinando cuidadosamente.
- Acho que sim.
E foi a minha vez de perguntar:
- E você?
Foi a vez dela me oferecer a pequena
mão.
Eu examinei, olhei bem de perto,
cheirei, ela riu, olhei bem nos olhos dela e falei:
- Eu descobri o seu segredo!
- Que segredo?
- Você é filha de uma fada!
Ela riu gostoso.
- Eu sabia! Só as filhas de fadas
riem desse jeito.
- Minha mãe é professora!
E eu não perdi a deixa:
- Sabia de que todas as professoras
são fadas?
Ela me olhou séria...
- É verdade?
- Verdade verdadeira. – respondi e
mudei de assunto – Gostou da história?
- Mais ou menos.
Sinceridade de criança é um santo
remédio, mas a gente tem que querer tomar. Às vezes é meio amargo, quase
sempre, mas faz um bem danado. Sentei para ouvi-la.
- Então me conta, por que mais ou
menos?
- Da história eu gostei.
- E do que você não gostou?
- Eu queria estar mais perto, fiquei
muito longe.
- Mas agora estamos juntinhas! –
abracei-a.
- Mas agora você não tá contando
nenhuma história!
- Mas eu posso contar!
Seus olhinhos brilharam! Contei de
forma sintetizada, mas muito inspirada, a história da menina que mudou o mundo.
Quando terminei ela me disse:
- Foi a história mais linda que eu
já ouvi.
Me deu um beijo e saiu, com seus
passinhos de fada, deixando um rastro de luz, que só os Contadores conseguem
ver.
Aquilo me fez pensar muito, e foi
desse encontro que nasceu o projeto “Primeira Fila”, um trabalho intimista, em
que todas as crianças sentam na primeira fila.
É claro que trabalho mais, mas o
prazer em contar histórias nunca foi tão grande, porque eu divido e convivo com
cada criança, o instante único, que certamente elas nunca mais esquecerão.

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