Contar histórias é um ato de amor.
O primeiro requisito para ser um
Contador é o coração.
A verdade no olhar de quem conta é o
ponto de encontro com o outro.
A essência da contação é a emoção!
Esse era eu, quando me descobri
Contador.
Mas há algum tempo já não sabia mais
o que de fato eu queria.
A contação havia se tornado apenas
um trabalho.
Mecânico.
Capaz de extrair as reações
desejadas da plateia sempre disposta a se encantar.
Artificial.
Que tipo de Contador eu havia me
tornado?
Naquela tarde, me dirigi à Cidade
dos Contadores disposto a desistir. Era o fim.
Ao me aproximar da cidade percebi
algo diferente: não havia movimentação alguma, o único som que se ouvia era o
do silêncio.
À medida que avançava pelas ruas,
constatava que de fato a cidade estava deserta.
O que havia acontecido?
Onde estavam todos?
Corri para o centro de convenções;
ninguém.
Voei para a Praça das Contações;
nada.
Só havia mais uma possibilidade: a
Biblioteca.
Num piscar de olhos eu estava em
frente à entrada.
A Bibliotecária Mãe estava colocando
a chave na fechadura – eu nunca tinha visto a Biblioteca fechada!
- O que aconteceu? – perguntei.
- Foram todos embora.
- Pra onde?
- E isso importa?
- Mas foram embora por quê?
- Cansaram de ser Contadores.
- E quem vai contar as histórias?
- Você tem alguma sugestão?
- Eu serei o último Contador.
- Belo título para uma história.
- Então está decidido, pode abrir a
Biblioteca que eu vou ficar.
- Se você acha que está fazendo um
favor pra humanidade, desista, vá embora; se está fazendo porque acha que é um
herói, também não precisa ficar.
- Pensei que a senhora fosse me
apoiar!
- Pode ficar com a chave. – disse
isso me entregando a chave.
- E o que eu faço agora?
- Você não quer salvar a história da
Contação? Divirta-se!
Ser o último Contador era uma
responsabilidade e uma tarefa gigantesca!
Eu poderia não aceitar.
Eu poderia recusar?
Coloquei a chave na fechadura.
Deixei minhas coisas no pé da
escada.
Voltei minhas costas...
E fui embora.

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